quinta-feira, 4 de junho de 2015

O capital e o trabalho no ENEM

RESUMO
"Não existe almoço de graça”, dizem os conservadores. Essa famosa sentença tem conquistado cada vez mais relevo no debate político brasileiro contemporâneo, pois de certa forma ela serve para balizar quem se propõe à esquerda/ progressista e à direita/ conservadora. Veja, há quem pense que uma das funções do Governo seria o combate às desigualdades sociais através de medidas assistencialistas. Para esses, o almoço nosso de cada dia seria pelo menos mais barato, afinal apoiariam uma forma de Estado de Bem-Estar Social. Por outro lado, há outros que pensam que ao Governo caberia tão somente a aplicação da leis e a manutenção da ordem, afinal as desigualdades entre nós deveria ser resolvida através da livre iniciativa, ou seja, através do reino das oportunidades do livre mercado.

Oras, uma vez que para se haver um bom debate, uma boa disputa teórica é preciso que haja ao menos um ponto de convergência – pois, sem ele não haveria discordância! – logo de início uma questão se impõe a nós: o que exatamente estaria em jogo quando se afirma que não há almoço gratuito? Não seria interessante pensar que, no fundo, ela nos leve a questionar o que é o trabalho?


ESCLARECIMENTO É LIBERALISMO
“Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade”, eis a famosa citação kantiana que ecoa pelos vestibulares. É, mas o tal do Esclarecimento foi um pouco além da defesa da autonomia moral do indivíduo e também inventou a sociedade comercial como o seu fundamento. Como se sabe, Locke e seus colegas esclarecidos afirmavam que existiria um “estado de natureza” no qual nos são atribuídas propriedades privadas que deveriam ser mantidas num “estado de sociedade”. Ou seja, de modo geral, os contratualistas creditavam o surgimento da sociedade civil à necessidade de proteção de valores individuais como “o meu tempo, a minha dedicação, o meu trabalho e seus frutos, isto é: a minha riqueza”.

Desta forma, as desigualdades de nossa vida em sociedade seriam, então, uma extensão de nossas desigualdades naturais: uma vez que todos somos livres para explorarmos nossos potenciais e talentos, a partir de agora é cada um por si e o livre mercado para todos: ele seria o reino das oportunidades! Portanto, a sua fome vai de encontro às batatas do vizinho porque elas são melhores e mais saudáveis, são uma melhor oferta. A tua satisfação vai de encontro com a satisfação dele. Nada melhor do que isso, afinal além de produzir riquezas, o livre mercado produz virtudes!

Entretanto, não é muito bem assim que pensa o nosso E-N-E-M... Pois nele podemos encontrar leituras mais realistas que envolvem critérios econômicos, sociais e políticos: o ENEM nos promove interpretações marxistas a respeito da história do trabalho. E como sabemos, (em termos de vestibular) Marx se apresenta para nós como um crítico da noção liberal do trabalho. Se para os liberais o trabalho enobrece porque através dele eu me torno socialmente útil, para Marx essa sentença é, antes de tudo, uma questão ideológica que camufla, que esconde, que oculta algo fundamental: o predomínio do capital sobre o trabalho, isto é, o fato de que o trabalho é uma mercadoria que produz mercadorias. E quando o trabalho está em jogo entre as quatro linhas do ENEM, ninguém melhor do que Marx para a escalação. Nesse sentido, devemos estar preparados para questões do tipo: “qual os impactos do assalariamento sobre o trabalho? Quais os efeitos da separação entre o trabalhador e os meios de produção? O assalariamento envolve estritamente relações de poder econômico ou também relações de poder político e cultural?” Temos adiante um estudo comparativo entre duas questões que envolvem o tema “trabalho”. Sim, existem várias, mas optamos por estas devido ao apelo de seus autores.

THOMPSON E O CREPÚSCULO DO SÉCULO 18
A primeira questão traz “A formação da classe operária”, do marxista inglês Edward Palmer Thompson expresso na questão 67 do Caderno Azul do ENEM/2009 cujo enunciado afirma:


Thompson é um dos maiores nomes do chamado marxismo cultural e atuou junto com Raymond Williams e Eric Hobsbawm na New Left Review, uma importante revista que aliou marxismo e estudos culturais a partir dosanos 1950 na Inglaterra. Dentre as suas propostas, estava a de compreender os hábitos e costumes dos trabalhadores/as como formas de resistência social. Para eles, a cultura seria um modo de produção. Em outras palavras, o importante para esses autores seria detectar e compreender como as tensões políticas e econômicas se expressam também através das práticas culturais.

Nota-se que a sugestão da letra “D” como gabarito indica como o regime de assalariamento opera uma decadência da qualidade cultural do trabalho, isto é: até o fim do século 18, aos fazendeiros seria possível dominar não somente práticas agrícolas de subsistência como também o regime fabril tecelão. Aliando ambas atividades, eles detinham não somente a autonomia de seus meios de produção como também obtinham prestígio social. Entretanto, o advento do assalariamento não somente apartou o trabalhador dos meios de vida como também generalizou a mão de obra de tal forma que potencializou seu anonimato.

SENNETT E O CREPÚSCULO DO SÉCULO 21
A nossa segunda questão traz o sociólogo norte-americano Richard Sennett. Filho de imigrantes russos, as suas obras abordam os impactos do neoliberalismo nas relações de trabalho e nas cidades contemporâneas. A questão que nos interessa é a 16 da prova de 2013, pois nela podemos detectar de maneira bastante objetiva como as privatizações e suas tecnocracias tem relativizado o conceito de trabalho com contemporâneo:


Não há muito mistério entre as alternativas propostas: é possível dizer que se trata de uma questão acessível, afinal o recorte do texto original é encerrado com a afirmação de que o capital financeiro se reinventa justamente para tornar a exploração do trabalho mais direto e, portanto, mais eficiente. Dessa maneira, vamos à letra “E” que indica que, por trás da aparente flexibilidade que o trabalho assumiu está o intenso controle sobre a sua produtividade.

Para fechar, podemos fazer uma rápida revisão traçando algumas interessantes semelhanças entre ambas questões:
  • Elas abordam o impacto de novas tecnologias sobre as forças produtivas de suas épocas: enquanto em Thompson assistimos à mecanização do trabalho, em Sennett vemos os efeitos da informatização do mesmo;
  • Enquanto em Thompson os teares mecânicos centralizam a mão de obra para melhor discipliná-la, aqui em Sennett as tecnologias informáticas flexibilizam o trabalho para melhor gerenciá-lo;
  • Se em Thompson há uma segregação cada vez maior entre o espaço doméstico e o espaço profissional, em Sennett ocorre o contrário: existe uma forte tendência de confusão entre o tempo pessoal e o tempo profissional.
Em outras palavras, pode-se dizer que com ambas questões, o ENEM promove leituras de como o capital é capaz de desenvolver novas expressões de seu poder administrativo sobre as forças produtivas humanas. 

Abraços!
Profábio

domingo, 5 de abril de 2015

Vlado - 40 anos depois

RESUMO: O artigo trata de atualizar a relevância do filme "Vlado - 30 anos depois" à luz dos conceitos de "memória" e "testemunho". A morte de Vlado Herzog completará 40 anos neste outubro de 2015. Um prato cheio para os vestibulares...


FILMES E REMEMORAÇÃO
Já tivemos a oportunidade de relacionar o filme "Vlado" com outro filme significativo a respeito do regime civil-militar, o "Hércules 56". Naquele abril de 2014, o Coronel Malhães dava seu depoimento à Comissão Nacional da Verdade: uma confissão a respeito dos lugares e métodos de tortura que definiram as suas atividades na famosa "Casa de Petrópolis". À época, considerei pertinente relacionar o filme "Vlado" com esses outros dois registros audiovisuais devido às dimensões narrativas. Um dos motivos que torna "Hércules 56" um filme imprescindível é o fato de nos oferecer os testemunhos de sobreviventes que lutaram contra a Ditadura. Quanto ao "Vlado", ele ganha força à medida que demonstra aquilo que é indizível a respeito do regime militar.

MEMÓRIAS CONTEMPORÂNEAS
Os estudos em torno da memória, narrativa e testemunho têm sido cada vez mais recorrentes nos campos da História e Literatura. Dentre os fatores que estimularam as pesquisas sobre esses temas, podemos citar o avanço das esquerdas nos governos latino-americanos na última década e a premente necessidade de investigar, atualizar e dimensionar as memórias políticas (sejam individuais ou coletivas) que foram oficialmente sonegadas pelos regimes militares no cone sul latino-americano.

Mesmo que o espaço desse artigo não nos permita uma análise robusta a respeito do tema, penso que seja interessante rastrear como os conceitos de "memória" e "testemunho" têm sido problematizados hoje em dia. A minha pretensão, como sempre, é oferecer referências teóricas àqueles que queiram produzir melhores redações.

MEMÓRIA 
É aquilo que nos torna presentes. Ou seja, a memória sempre é criteriosa e seletiva. Memória é aquilo que nos tornar cada vez mais humanos à medida que somos capazes de reconhecer e evitar nossos fracassos e derrotas. Em outras palavras, se os instintos tornam os outros animais mais adaptativos, em nós, a memória tem teria essa função primordial. Que fique claro que aqui estamos no terreno da História. Com vocês, a Profa Gagnebin.


Sendo assim, quando começamos a falar a respeito do que fomos, quando começamos a racionalizar, a explicar o nosso passado, matamos a memória porque a transformamos em história: palavra, território afetivo, simbolizado e significado. E sempre de acordo com o nosso presente. Nunca nos lembramos das pessoas, eventos e afetos da mesma maneira. O "lembrar" sempre é uma operação de recorte, de crítica e fundada naquilo que nos é importante hoje. No que toca a nossa consciência histórica, só nos lembramos de algo ou de alguém que nos importa hoje. Sendo assim, Vlado ainda é presença entre nós? Seria o Amarildo um espectro de Vlado? Por que ainda a tortura no país?

TESTEMUNHO
Os romanos distinguiam "testis" de "supertes". "Testis" define aquele que viu e vivenciou um fato, ou seja, "testis" é aquele que traz uma versão visual - e, portanto, verdadeira - a respeito de um acontecimento. Por sua vez, "supertes"é aquele que ouviu dizer a respeito de algo, isto é, ele é uma espécie de terceira pessoa que pode comprovar algum fato. Com vocês, o Prof. Seligmann-Silva.


Essas duas versões do testemunho ganham relevo quando os temas são os regimes militares latino-americanos, pois como testemunhar a respeito de espionagens, prisões arbitrárias e torturas? De que forma valorizar - e até mesmo encarar - confissões de tortura e de violações humanas? Seria possível narrar integralmente o horror dos porões? E aqueles que testemunham por terceiros, que condições narrativas eles promovem? O fato de eles narrarem já não é forte o bastante para demonstrar que outros não podem (nem poderão) narrar? Enfim, a palavra seria capaz de reintegrar o que restou de humano ao presente?

VLADO E VESTIBULAR
Hoje, em 2015, o filme "Vlado" completa dez anos. É um filme forte pela maneira como é conduzido com câmeras digitais bem próximas dos rostos dos depoentes, pessoas que viveram ou trabalharam com Vlado. Além desse recurso retórico, outra força expressiva do filme reside no detalhismo dos testemunhos trazidos à tona.... Assim, eis uma questão exemplar da UFSM/2011 a respeito do tema:


(GABARITO:C)
Abraços e bons estudos!
Profábio

domingo, 22 de março de 2015

Memória e esquecimento em "Ida" (2015)

RESUMO
Por onde estreou, o último filme de Pawel Pawlikowski causou discussões. A direita católica o criticou pelas sugestões imorais em torno de Ana, a protagonista. A esquerda europeia teceu críticas à memória tirânica em torno de Wanda, a tia da protagonista. Em meio a essas críticas, houve aqueles que criticaram a forma como o diretor abordou a memória da Shoah... Para acompanhar este rico ziguezague, recomendo a leitura do "The Guardian". Ou então, sigam tranquilos: não há spoilers por aqui!


ANA, A PROTAGONISTA
O filme narra a história de Ana, uma jovem que perdeu seus pais e está prestes a fazer o seu voto de castidade. Dada a iminência do voto, a Madre sugere que ela procure sua tia, a única parente ainda viva de sua família. As cenas iniciais demonstram a clausura, o silêncio, a austeridade da vida monástica. Valores que logo serão colocados em xeque no encontro com a tia Wanda.

Logo no primeiro encontro com a tia, Ana aprende que na verdade o seu nome é Ida, e que seus familiares judeus foram exterminados no Holocausto. Fria e quase impessoal, a tia é somente o primeiro de muitos choques de Ida. A tia Wanda, a única sobrevivente da família, é, antes de tudo, um sintoma: é quem jogará Ida no limiar entre o passado e o presente, é quem vai deslocar os afetos de Ida em direção a um impasse: será que o passado realmente passa? E  como agir, o que fazer quando o passado insiste em estar presente? A partir desse momento, redescobrimos junto de Ida (ex-Ana) não somente o seu passado, mas também novas possibilidades de futuro.

O JAZZ, ESSE MUNDANO
A tia atende aos pedidos de Ida: ela precisa buscar seu passado, as verdades a respeito da família, onde estão os seus antepassados. Ao longo dessa viagem, elas cruzam belas paisagens entrecortadas por diálogos raros, costurados por silêncios, rumores e lacunas. Afinal, todo exercício de lembrança é uma forma de reconstrução de si mesmo. Ou seja, relembrar é uma forma de poder: de poder autorizar um passado; de poder dizer o que se foi e, então, porque se é assim hoje; de julgar ou redimir os mortos; enfim, todo exercício de lembrança traz em si um paradoxo: diz-se sobre o passado a fim de legitimar um presente, assim como diz-se sobre o presente como uma forma de celebração do passado.

Durante a viagem, Wanda e Ida dão carona a um músico. Um jazzista que troca olhares insinuantes com ambas enquanto fala de sua vida errante e boêmia. Esse será um personagem importante na vida de Ida: como jazzista,  ele simboliza a vida vulgar e mundana da sociedade de consumo. Vale lembrar: o jazz é um estilo musical nascido nos Estados Unidos, uma linguagem parida nos prostíbulos e na vida noturna da América.... Não à toa, Adorno fez as cabeças dos frankfurtianos ao desprezar o jazz como sendo a expressão maior da decadência da indústria cultural ocidental... Dessa forma, caberiam as perguntas: Ida resistirá ao saxofone coltraneano do músico? Como ela enfrentará as seduções da vida noturna? Não seria o jazzista o canto de sereia de Ida?

A PAISAGEM, UM ESQUECIMENTO
Chegamos ao vilarejo de seus antepassados. Ali, a tia Wanda começa a revelar também o seu passado. Não por completo, afinal só sabemos dela pelas lacunas, por aquilo que lhe falta: a des-identidade, a des-importância que ela tem para as autoridades locais e a falta de lucidez provocada pela constante embriaguez.... Outrora uma importante jurisprudente do regime soviético, Wanda fica furiosa por não ser reconhecida pelas baixas patentes que a encarceram. Após esse episódio, vamos em busca, enfim, de seus antepassados.

Ao percorrermos o vilarejo com elas, observamos um lugar calmo e bucólico. Para um espectador normal, nada de anormal: os bois passam, as batatas são colhidas e a vida segue. Eis o interior da Polônia. Entretanto, este cenário bucólico e frívolo esconde o capítulo mais bizarro da história contemporânea: o Holocausto. O vilarejo é cercado por bosques: as árvores que vemos foram plantadas pelos batalhões nazistas no final da Guerra, pois uma vez que a derrota era certa, eles trataram de esconder, ocultar, apagar os vestígios dos campos de concentração! Em outras palavras, não bastava montar uma indústria genocida: era fundamental imputar também um esquecimento oficial.... Os bosques que vemos não escondem o Holocausto: eles são a própria carne e materialização dele. A serenidade da natureza, às vezes, pode não calar a brutalidade de certas memórias... E então, o passado passa?


ANA, IDA E AGORA?
Como se vê, o filme tem muitas nuances: a transformação de Ana em Ida; a revelação das memórias tirânicas e alienadoras de Wanda; as seduções que a cultura de massa representam frente à ética monástica e, enfim, a dimensão brutal, corpórea e presente do Holocausto.

Sendo assim, deixo aqui algumas perguntas: não seria interessante pensar o filme como um caminhar no limiar entre o passado e o futuro? Pois enquanto levava sua vida monástica, Ana era a própria negação de seu passado... Mas à medida que a acompanhamos no filme, ela já não é mais Ana e, ao mesmo tempo, ainda não é Ida: ela vive numa zona cinzenta, num intervalo de sua identidade, numa espécie de umbral existencial. A ela já não é mais possível ser católica, mas ao mesmo tempo a tensa e lenta revelação de seus antepassados torna impossível assumir-se judia. E talvez não lhe seja mais possível ser "irmã", mas uma coisa é certa: é o convívio com o mundo tal como ele é que a torna mais humana.

Abraços fortes!
Fábio

domingo, 21 de setembro de 2014

Lugares de memórias

Resumo: o artigo apresenta duas visitas históricas, sendo a primeira ao "Museu da Memória" de Montevidéu/ Uruguai e a segunda à "Villa Grimaldi", Santiago/ Chile. Ambos locais são símbolos de resistência histórica das memórias dos regimes ditatoriais latino-americanos.

COMISSÕES E VERDADES
Esse ano de 2014 já trouxe ao Brasil dois grandes desafios: a Copa do Mundo e as eleições que colocam em evidência os limites de duas grandes hegemonias políticas: a do PSDB no Estado de São Paulo e a do PT em nível federal. Porém, além desses desafios, ainda nos resta um a ser digerido a longo prazo: o dossiê final da Comissão Nacional da Verdade.


Desde o início de seus trabalhos em julho de 2012, a CNV esteve envolvida em polêmicas a respeito de suas competências, isto é, se sua prioridade seria de natureza investigativa ou se também seria capaz de judicializar casos de violações aos direitos humanos. Além disso, muito se comentou a respeito de quais verdades estariam em jogo, afinal os intelectuais que a compõem estariam, em maior ou menor grau, comprometidos historicamente com ações de esquerda que armaram sequestros e assaltos entre outras ações consideradas ilegais pelo regime militar brasileiro.

O fato é que ainda há muito a ser investigado por aqui. Dentre os motivos, podemos citar: um volume considerável de arquivos militares foram extintos; é recente o reconhecimento de que empresas e setores civis contribuíram com o aparelho de inteligência e repressão do regime militar; apesar de a Comissão Nacional servir de referência para o surgimento de mais de cem Comissões Estaduais e Municipais da Verdade, é sabida a carência que temos de patrimônios materiais que sinalizem as evidências de um passado ditatorial em nosso país. Dito de outra forma, o avanço democrático nas últimas duas décadas também tratou de institucionalizar um esquecimento hegemônico, pesado e silencioso a respeito de onde e como se praticou a repressão política em nosso país. E podemos compreender isso muito bem quanto visitamos os nossos vizinhos do Cone sul latino-americano.

LUGARES DE MEMÓRIA
Nos estudos históricos, a noção de "lugar de memória" envolve uma polêmica que exige fôlego. Afinal, o que são lugares de memória? Seriam locais que aglutinam boas experiências passadas e, por isso, ainda servem como referências presentes? Seriam espaços que frequentamos para nos lembrar (e resolver) desafios e traumas históricos para que não voltem a ocorrer? Esses lugares deveriam ser públicos ou privados? A quem eles dizem respeito? De quem eles tratam - ou deveriam tratar? Enfim, quando se diz "lugares de memória", é possível dizer que a única coisa que temos como certo é que, antes de tudo, eles são zonas de disputas políticas envolvendo significações sociais, afetivas e econômicas. Para me valer duma metáfora brutal, os "lugares de memória" são os octógonos das tensões históricas.

MUSEU DA MEMÓRIA, MONTEVIDÉU
O Museu de Montevidéu requer uma caminhada, pois ele está situado numa antiga hacienda do século dezenove distante do centro da capital. Leva-se, aproximadamente, uns trinta minutos de ônibus circular para se chegar até o local. Apesar da distância, o acesso é simples, pois pode se tomar vários ônibus a partir da avenida principal da capital, a 18 de julho.

O Museus oferece muitas publicações a respeito do regime militar que perdurou de 1973 a 1985, desde jornais de época, vídeos e pôsteres como formas de resistência política ao regime. Ao chegar ao Museu numa tarde muito, mas muito fria de julho de 2013, eu tive a feliz oportunidade de encontrar um grupo de estudantes norte-americanos que estavam sendo guiados por uma senhora muito gentil que - depois vim a saber - foi companheira de cela de José Mujica - o atual presidente uruguaio em fim de mandato.

O Museu nos oferece uma série de vestígios históricos que dão uma forte sensação de como foi o regime naquele país. Ali podemos encontrar roupas, badulaques e artesanatos produzidos pelos próprios prisioneiros políticos; ruínas de batentes, portas e trancas de celas; restos de instrumentos de tortura; uma enorme coleção de passaportes, fotos, cartas e outros documentos pessoais que restaram dos cárceres, como se pode ver na edição a seguir.


Em tempo: o Uruguai foi capaz de articular uma Comissão para a Paz a partir do ano 2000, sendo que a Anistia foi revogada em outubro de 2011. A Comissão uruguaia, além de investigativa, também conseguiu a punição de uma dezena de agentes da repressão militar, dentre eles Bordaberry, condenado a 30 anos de cárcere em 2006.

VILLA GRIMALDI
Tenho amigos que já visitaram campos de concentração europeus. E tenho a sensação de que seus relatos se aplicariam perfeitamente à experiência de uma visita à Villa Grimaldi, em Santiago... Da mesma forma que o Museu uruguaio, Grimaldi fica distante do centro comercial e turístico da capital. Isso é digno de nota porque se trata de uma forma de discriminação histórica, ou seja, uma forma de se dizer aos turistas "o que deve ser visto e o que deve ser esquecido".

O acesso à Grimaldi leva uns quarenta minutos de baldeação de metrô-e-ônibus a partir da Plaza de Armas, centro de Santiago. Ao chegar lá numa tarde fria, mas muito fria de julho de 2014, eu não encontrei uma alma viva naquela que foi o mais significativo centro de repressão do regime militar pinochetista. O local era um reduto gastronômico de imigrantes italianos até 1973. Daí o seu nome, "Villa Grimaldi". Entretanto, foi desapropriado à força pelo regime militar e passou a funcionar como centro de tortura por quase uma década. Situada ao pé da Cordilheira e vizinha do aeroporto, a Villa hoje é um patrimônio histórico tombado que abriga ruínas de um macabro passado recente da América Latina.

Eu permaneci quase três horas dentro da Villa a fim de ler com atenção todas as informações oferecidas pelo Museu. Feito isso, pratiquei uma caminhada em passo contínuo (cerca de trinta minutos) com a câmera ligada a fim de registrar um olhar de observação sobre suas ruínas. Dias depois, eu me deparei com uma parada cívica de uma fanfarra de um colégio privado ao longo do Paseo Ahumada (uma espécie de "calçadão" central). Bem, não pude me furtar às associações históricas: pensei em editar a visita à Villa com as trilhas sonoras daquela 'paradinha militar contemporânea'....


O Chile hoje vive o segundo Governo de Bachelet. Desde 1990, com o famoso "informe Rettig", o país procurou seus próprios caminhos em busca da reavaliação do seu passado militar. A partir de 2003, a Comissão Valech consolidou as políticas institucionais em torno das investigações e reparações históricas vinculadas às violações dos Direitos Humanos.

CODA: NARRAÇÃO É REDENÇÃO
Nos idos de 1930, Walter Benjamim questionava o valor da narração no mundo contemporâneo. Ele afirmava que o avanço da modernidade nos roubava a capacidade de narração. Para ele, narrar envolvia uma dimensão humana fundamental: a capacidade do ser se reencontrar consigo mesmo. A narração seria uma forma do indivíduo se desautomatizar, se desabituar, se desvincular de um cotidiano frio, burocrático e administrativo e se deixar envolver com um mistério, com um encanto maior chamado palavra. Porque é a palavra que funda a vida.

Abraços!
Profábio.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Duas hegemonias e uma questão

RESUMO: O artigo pretende ler a noção de hegemonia à luz de questões brasileiras contemporâneas.

O ano de 2014 ainda guarda uma surpresa: as eleições estaduais e federais de outubro. Elas envolvem boas expectativas porque têm o potencial de reconfigurar as estratégias partidárias locais e os rumos políticos e econômicos em torno de um novo padrão de desenvolvimento brasileiro conforme apontou Gianetti. Outros fatores contribuem para aquecer as expectativas quanto ao pleito de outubro: a obscena crise moral e social do Brasil na “Copa das Copas”, a desconfiança nua que depositamos nos representantes políticos e, enfim, os rastilhos de pólvora das Jornadas de Junho. Além dessas evidências, vamos questionar outros dois elementos de longa duração histórica que também estão em jogo: a hegemonia do Partido da Social Democracia Brasileira em escala estadual em São Paulo, o maior colégio eleitoral da federação, e a hegemonia do Partido dos Trabalhadores em nível federal. E uma referência quando se trata de hegemonia é Antonio Gramsci.


VAI SER MARXISTA NOS 1920
Gramsci foi um teórico italiano marxista que viveu entre 1891 e 1937. Nascido na Sardenha, ele se mudou para Turim, uma próspera região industrial, onde se envolveu com o Partido Socialista Italiano. Depois de conhecer o movimento operário de Paris e Moscou, ele rompeu com as leituras que seus colegas faziam do marxismo e ajudou a fundar o Partido Comunista Italiano enquanto publicava suas interpretações em jornais operários. Entretanto, a sua atividade política o colocou na mira do governo fascista de Mussolini que mandou “prender e calar esta cabeça por mais de vinte anos”. Mesmo preso, Gramsci continuou sua atividade intelectual: além de manter correspondências com familiares, ele também aprofundou suas interpretações a respeito do marxismo com originalidade, conforme veremos a seguir. Gramsci foi solto em 1937, porém veio a falecer no mesmo ano devido à tuberculose.

O CÁRCERE ENTRE GRAÇA E GRAMSCI
É comum encontrar estudos que traçam afinidades entre as biografias de Gramsci e a do escritor brasileiro Graciliano Ramos. Assim como Gramsci, o alagoano nascido em 1892 também foi vítima do fascismo: ele foi encarcerado pela polícia varguista de Filinto Müller de 1936 a 1937. O cárcere foi decisivo para a formação intelectual de ambos escritores: eles experimentaram a dura rotina ambivalente da disciplina prisional que, ao mesmo tempo que aumenta a força útil e econômica dos corpos também diminui a força política dos mesmos ao acentuar o exercício da obediência. Em outras palavras, como diria Foucault, a disciplina “dissocia o poder do corpo, pois ela aumenta a sua aptidão enquanto reforça a sua submissão”.

UM PACTO SOCIAL GRAMSCIANO?
Dentre as grandes questões que perturbaram Gramsci, certamente a mais traduzida no Brasil diz respeito à integração das dimensões do trabalho com a cultura e a direção política sob uma perspectiva revolucionária. Nesse sentido, ele considerava que todos nós, trabalhadores de qualquer ordem, somos intelectuais dado que o trabalho é a dimensão fundamental de reprodução da vida humana. Portanto, já que todos os trabalhadores são capazes de reproduzir suas condições de existência, eles também seriam capazes de produzir suas próprias condições culturais. Sendo assim, a revolução rumo à tomada de poder deveria ser feita de “maneira passiva” através de “processos de socialização política”, como se pouco a pouco os trabalhadores fossem conquistando postos de lideranças públicas dentre professores, advogados, jornalistas, funcionário públicos, escritores, músicos e outros formadores de opinião até, enfim, a conquista da máquina burocrática, ou seja, o Estado.

Gramsci acreditava que ao “Oriente” (leia-se Rússia/URSS) coube uma revolução frontal, armada e violenta através de uma “guerra de movimentos” para a tomada do Estado como aparato de dominação porque ela ainda desconhecia a “sociedade civil”. Por sua vez, o “Ocidente” (leia-se Itália, Alemanha e países ditos desenvolvidos no período do Entre guerras) burocratizado pelo fordismo exigiria uma nova postura revolucionária marcada pela tomada de posições culturais no seio de uma sociedade de massas através de estratégias mais eficientes como a do ataque pelo “consenso”, pela construção de uma “cultura comum aos trabalhadores” de forma que, antes mesmo de assumir o comando da máquina administrativa (Estado), os trabalhadores já exercessem a dominação não pela força burocrática, mas pela coerção cultural, ou seja, pelo exercício da “hegemonia”. E os “partidos políticos” teriam um papel fundamental na conquista dessa hegemonia, pois eles seriam uma espécie de “príncipe maquiavélico moderno”, ou seja, eles teriam a função de garantir a articulação dos interesses da classe trabalhadora e o exercício da gestão pública. Dessa forma resumida, a preocupação de Gramsci era tanto criticar aqueles que nos idos de 1930 eram chamados de “marxistas deterministas” como também propor uma leitura marxista adequada à sociedade industrial, burocrática e administrativa dos chamados países de primeiro mundo.

PALAVRÓRIOS E CONSPURCAÇÕES
Feito esse resumo, voltamos façamos às questões aos temas iniciais do artigo: que fatores foram os responsáveis pela manutenção da hegemonia do PSDB em São Paulo? Seriam as alianças políticas e as afinidades de interesses com as elites agroindustriais interioranas? Eles contemplariam a constante e forte adesão da classe média aos projetos tucanos apresentados até o presente momento? E ainda seria possível dizer que, dentre eles, estaria a eficiência na prestação dos serviços públicos dada a gerência privatizante que alinhava a história dessa hegemonia? Enfim, se esses são os fatores mais cogitados para tal hegemonia, então que propostas o Partido da Social Democracia Brasileira tem a oferecer em 2014 frente às recentes manifestações sociais e à crise hídrica que envolve a Cantareira?



Quanto ao Partido dos Trabalhadores, ele bate metas: arrecadou mais de R$ 50 milhões em doações nos últimos três anos e garantiu cerca de 8 mil novos filiados por mês no mesmo prazo. Em 2002, ano em que o ex-presidente Lula foi eleito, ele contava com 828 mil filiados e hoje o partido tem cerca de 1,6 milhão, ou seja, ele teve um aumento de 91% no número de filiados enquanto o aumento médio dos outros partidos foi de 36%. Resta saber como eles administrarão tamanha máquina partidária frente as desavenças internas entre Lula e Dilma pelo comando da campanha eleitoral. Além do fascínio que essa hidra partidária pode exercer sobre seus correligionários, o fundamental é saber se e o que eles ainda podem oferecer à administração do País. Antes de fechar o artigo, digo que só há uma coisa mais preocupante que o exercício dessas hegemonias: o fato de que o partido político que tem o maior número de filiados jovens é o Partido Progressista (PP), antiga ARENA. Uma nova hegemonia se anuncia?

Abraços,
Profábio.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

A nudez da política

Resumo: o propósito do artigo é provocar a seguinte questão: por que gostamos de desnudar a vida contemporânea?

PENSAR TEM PESO 
Sempre que tenho que abordar as perspectivas entre Sócrates e Platão em sala de aula, eu recorro à Hannah Arendt (1906-1975). Ela afirmava que, ainda no século vinte, "éramos capazes de pensar um pouco mais que Sócrates e ainda menos que Platão." O que me encanta no território arendtiano são suas considerações sobre a ação política e sobre como as distâncias entre aqueles filósofos possibilitaram a transformação da autoridade em despotismo. Ao conceber um ideal de cidade, Platão abre a possibilidade de divorciar o pensamento da ação política; afinal, a ideia de governo que, em Sócrates era institucionalizada pela dialética, pelo debate público, nele passa a envolver a administração das vontades dos outros por uma aristocracia. A força da dialética (o diálogo) passa, então, a ser traduzida pela dialética de forças (a violência).


Da mesma forma, quando penso em apresentar Aristóteles, eu me valho de Agamben (1942 - ), um italiano pensador do contemporâneo e nascido na mesma época em que Arendt tem seus direitos cassados pelos nazistas e, por isto, decide emigrar da França para os EUA. Existem algumas afinidades entre o pensamento de ambos, dentre elas a preocupação com os valores em torno da dignidade humana no mundo contemporâneo. Corro o risco inerente à didática ao afirmar que aquilo que Arendt chama de "condição humana" é o que Agamben chama de "vida nua": ambos conceitos são tentativas de compreender porque e de que maneiras naturalizamos, normalizamos e normatizamos a violência hoje em dia.

SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO CAPTURADO
Dentre as muitas bobagens que vi e ouvi de colegas professores de Sociologia, está a de que o "o positivismo do século 19 pretende levar a sociedade de um estágio negativo para um estágio positivo (...)". Tamanha besteira não me permite estabelecer o hiperlink que a evidencia. O que importa é esclarecer que o conceito de "positivo", originalmente cristão, sofre transformações ao longo da Modernidade até ser compreendido como uma carga de normas, de regras, de ritos impostos aos rumos da História. Basta ler Hegel. Mas já que Hegel dá dores de cabeça, então leia Agamben em "O que é um dispositivo": ao menos as cefaleias serão mais requintadas.

É Foucault quem nos permite transitar de "positivo para dispositivo".  De tanto estudar loucura, marginais, ciências psicos e 'instituições-sequestros' (escolas, hospitais, clínicas psiquiátricas, internatos e baratos afins), este francês - contemporâneo de Agamben - nos legou a ideia de que "dispositivo é aquilo que captura", ou seja, os dispositivos são práticas e mecanismos que envolvem jogos imediatos de poder.

Portanto, quando você ouvir sobre "positivismo" e "dispositivos", preocupe-se: alguém está afim de regular, normatizar, educar, disciplinar, domesticar e adestrar seus pensamentos, desejos, intenções, corações, mentes e corpos em nome de determinados valores sociais. Costumam dizer que estes valores são ordem e segurança pública. Porém, é importante perceber que estes valores não são essenciais, ou seja, não são próprios, inerentes à dignidade humana: ao contrário, são determinações sociais, são construções históricas que, por sua vez, passam a querer nos dizer quem é digno de vida - ou não.


ZOÉ, BIOS E NUDEZ
Em "O que resta de Auschwitz", Agamben afirma: "a notícia atroz que os sobreviventes carregam dos campos para a terra dos seres humanos é precisamente a de que é possível perder a dignidade e a decência para além da imaginação, de que ainda há vida na degradação mais extrema (...)". Veja, o que está em questão não é somente Auschwitz, mas a base de Guantánamo, a guerra civil síria, as fronteiras de Tijuana, a praça Taksim, a praça Euromaidan, as ruas venezuelanas, a guerrilha no Mali, a favela da Maré.

Agamben desenvolve sua compreensão sobre política contemporânea a partir do que Aristóteles chamou de vida zoé e vida bios: a primeira é o território do espaço doméstico, a segunda o do espaço público. A vida zoé é o reino das necessidades, a vida bios é o reino das possibilidades. A vida zoé é patética, ela é marcada pelo pathos, pelo drama, pela ira e emocionalidade inerente aos instintos humanos. Dentro de casa, temos uma liberdade com os demais, um "jeito" de falar, um trato humano demasiadamente afetivo que atende aos nossos instintos de preservação e segurança, mas também compromete o nosso juízo e a nossa vida moral. Portanto, a vida zoé é animal, bruta, fisiológica e impulsiva: é o reino do "eu quero".

Ao contrário, porque somos todos animais políticos, ou seja, porque somos todos capazes de criar e compartilhar valores para a vida, não podemos levar a vida zoé para o espaço público: nele pouco importa o que queremos, mas sim o que podemos e o que devemos. Esta é a origem da vida bios, ela trata da realização do nosso potencial para uma vida boa, uma vida melhor qualificada. Esta qualificação da vida é o que chamamos de política e ela deve ser construída e realizada na Ágora, no espaço público, que é o território da celebração das diferenças e da definição de virtudes: é a satisfação do ethos (ética). Portanto, a vida bios é social, racional e dialética: é o reino do "eu posso, mas eu devo?"

PORQUE A NUDEZ NOS ENCANTA
Porém, como agir quando fazemos política para eliminar de determinadas pessoas a possibilidade delas fazerem política? Como nos comportarmos quando a nossa vida zoé trata de impor uma vida bios aos outros? O que devemos pensar quando aquilo que deveria ser um processo de qualificação da vida se torna um processo de extermínio da dignidade humana? E como ler imagens quando a diplomacia se torna um exercício de imposição de violência e de sacrifício de "zoés" por aqueles que se julgam "bios"?

Abraços,
Profábio.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

os três lados da moeda

Resumo: o artigo se propõe apresentar como são fabricadas as memórias em torno da ditadura militar.
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Um dito popular nos informa que "recordar é viver". Leio-o com ceticismo, afinal a memória é, por natureza, seletiva: dentre suas funções está a de nos ajudar a esquecer as coisas - e não recordá-las. Não fosse assim, pense no seguinte exemplo: imagine-se aos vinte e um anos capaz de se lembrar e atualizar recordações de longas duas décadas... Seríamos uma espécie de "Benjamim Button", um paradoxo existencial, pois seríamos consciências velhas em corpos jovens! Então, retomo o raciocínio: recordar talvez não seja viver, e sim negar a vida presente, é resistir ao tempo. Recordar, portanto, é religar, é atualizar experiências, é retomar uma nova ação em busca de um outro tempo. Um tempo onde o passado passa.


Neste ano de 2014, o Brasil tem a chance de fazer o devido check-up de sua curta democracia: estamos prestes a celebrar o inédito sétimo ritual eleitoral e, além disso, de maneira muito oportuna, temos condições de ouvir nossos intelectuais discutir e qualificar o que foi o Regime Militar. Porém, a pergunta é importante: existem reais condições de um debate qualificado? Quais as reais chances de a caserna abrir e apurar seus arquivos? Com que cara devemos ler as insistentes declarações de "Continência a 1964" presentes na mídia? Se ontem  os conservadores estavam bem localizados à margem da sociedade devido à hegemonia cultural da esquerda, que conclusões nos são possíveis hoje frente aos depoimentos dos conservadores que ocupam a base governista brasileira junto com a chamada esquerda?!

Na tentativa de fugir dos ânimos pessoais assolaram o debate público sobre o 1964 nas últimas semanas, gostaria de registrar aqui alguns filmes que trazem à tona as tensões entre memória e história e esclarecem fatos importantes relativos ao Golpe Militar de 1964 e a consequente Ditadura Militar.

1º LADO: A MEMÓRIA SILENCIADA


Joaquim Pedro de Andrade apresenta aquele que talvez é o marco maior da obscenidade do regime militar: a morte e a negação da morte do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI-CODI. A estratégia fílmica de J.P.A é impactante, pois parte para as entrevistas determinando um grande close nas faces dos envolvidos no "caso Vlado". O rosto dos depoentes se tornam paisagens históricas feitas de realidade bruta. Nelas lemos peças de sentimentos do cárcere e identificamos as vozes que ficaras silenciadas décadas. Seguramente, este filme é uma obra maior do documentarismo brasileiro.

2º LADO - A MEMÓRIA MEDIADA



Ao tratar do sequestro de Charles Elbrick em 07/1969, Da-Rin se vale de um recurso potente nas entrevistas: ele apresenta vídeos de época aos envolvidos à medida que desenvolve seus encontros. Dessa forma, o que vemos além das confissões políticas sobre os eventos do sequestro, são justamente as reações espontâneas de alguns entrevistados frente às imagens de época. Elas demonstram como a memória funciona, como nos lembramos daquilo que queremos lembrar, ou melhor, como nós também determinamos o que e como queremos nos lembrar do passado. Enfim, é notável como as imagens de "guerrilheiro" e de "resistência à ditadura" são construídas diante de nós ao longo do filme.

3º LADO - A MEMÓRIA OBSCENA



Esta é para quem tem fôlego: a primeira parte do depoimento de Paulo Malhães à Comissão da Verdade. A partir de uma "lógica eichmanniana", ele logo aos cinco minutos, declara que "sendo militar, a ele não cabia ter escolhas, e sim seguir ordens (...) mesmo porque nunca chegou a pensar nisso (...)". Seguindo este raciocínio imoral, ele desfia sua formação militar, esclarece como "aprendeu a amar a pátria, sobretudo", responde sobre seus contemporâneos nos movimentos anticomunistas e avança rumo aos detalhes das práticas de tortura. Ele esclarece como decidiu "trabalhar no tempo" e, portanto, nunca deixou de "ser um estudioso": estudou técnicas militares norteamericanas e israelenses. Seu depoimento é das raras vozes confessionais que esclarecem as práticas de desumanidade que foram legitimadas e legalizadas pelo regime militar. A maldade se tornou funcional, ordinária e rotineira nas "Casas de Conveniência", os lugares onde se conquistam os presos para que se tornassem infiltrados. Ossos? "Podem esburacar o Brasil inteiro que não vão achar nada (...)"

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CODA: RECORDAR É NÃO VIVER

Silvio Tendler encontrou militares que recusaram a lógica eichmanniana e aceitaram o convite para depor em "Militares que disseram não":


https://www.youtube.com/watch?v=7QyF3xNtfVE

Pode-se ver que recordar também é não querer viver o mesmo jamais.

Abraços,
Profábio.