quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A FUVEST E O BRASIL IMPÉRIO

A FUVEST E O BRASIL IMPÉRIO

Como bom estudante, você deve se lembrar que nós fomos o último país a abolir a escravidão mercantil no mundo ocidental. Quer mais? Ainda fomos responsáveis por receber cerca de 40% do contingente populacional arrancado às forças do continente africano. Dessa forma, esse sistema de trabalho chamado escravidão foi naturalizado de tal forma que se converteu em uma linguagem que contaminou as nossas relações culturais e políticas. Preparem-se, hoje vamos visitar o Brasil Império na FUVEST DE 2016.

ESCRAVIDÃO E TRABALHO
Como você sabe, a escravidão africana começa a tomar conta das costas de nosso país já no século 16. E segundo o historiador Boris Fausto devido a conjunção de três fatores:
01. Primeiro devido à catástrofe demográfica que abateu a população indígena que era vitimada por sucessivas epidemias trazidas pelos homens do Velho Mundo;
02) Segundo porque a escravização indígena enfrentava forte resistência das ordens religiosas que tinham lá as suas convicções missionárias que queriam fazer do índio “bons cristãos”;
03) Terceiro porque nas décadas finais do século 16, o comércio de escravos já se mostrava como uma alternativa econômica altamente rentável que destinava mão de obras às diversas atividades. De tal modo que no apogeu da economia açucareira, por volta dos 1650, o custo de aquisição de um escravo negro era amortizado entre 13 e 16 meses de trabalho.
Dessa maneira, o chamado tráfico negreiro foi marcado por ondas de migrações forçadas que chegaram até o século 19 arrancaram negros de diferentes regiões do continente africano, sendo Salvador e Rio de Janeiro os principais centros importadores dos cativos africanos, como se pode ler no gráfico apresentado pela questão 83 da prova da FUVEST de 2016.  

O gráfico foi extraído dos estudos do renomado historiador da UFRJ, Manolo Florentino, que, dentre outras coisas, demonstram que o comércio de cativos foi um mecanismo econômico altamente lucrativo que fez de muitos traficantes uma parcela significativa da elite política brasileira naquele momento de construção do Estado nacional brasileiro logo após a independência do país.
Isso significa reconhecer que a resistência ao projeto abolicionista estava enraizada no projeto de formação da nação brasileira. E que mesmo muito endividada com os banqueiros ingleses, a elite brasileira fez vista grossas ao liberalismo inglês. Bom, pelo menos até 1850 quando as esquadras marítimas da rainha Vitória decidiram invadir as águas brasileiras a fim de reprimir decisivamente o negócio de cativos. Bem, dado esse cenário, sejamos objetivos com as alternativas:
ü  A LETRA A está errada porque vai contra as informações do gráfico que demonstram que a escravidão ainda era predominante nos primeiros 30 anos do Império apesar de leis como a de 1831 que permitia à Inglaterra inspecionar os navios negreiros em alto mar.
ü  A LETRA B está equivocada porque o tráfico negreiro sempre foi uma atividade constante em nossa história;
ü  A LETRA C responde a questão ao exigir que o candidato reconheça, por exemplo, que apesar da ruptura política com Portugal, a independência também foi marcada por permanências históricas, a exemplo da escravidão;
ü  A LETRA D também vai na contra mão do enunciado que denuncia a força que o tráfico negreiro sempre exerceu em nossa economia;
ü  A LETRA E também não responde a questão porque você sempre vai desconfiar desses advérbios de modo, certo? E em termos históricos, você sabe que o Brasil levou cerca de quarenta anos para aderir à pauta abolicionista também porque escravo é moeda: se você o abole, o Império vai te indenizar?

... MAMA ÁFRICA?
Para encerrar, vale chamar a atenção para o fato de que os temas ligados à escravidão têm sido revisitados desde a década de 1980. Pois é, de certa forma, o centenário da abolição estimulou interpretações que passaram a valorizar as diversas formas de resistência à escravidão, às possibilidades de negociação entre senhores e escravos e até mesmo de constituições de laços familiares no seio escravista.
E como diz Florentino em entrevista à Revista de História, apesar de muito sofrimento e dor, a presença do negro em nossa história deve ser encarada como um ensinamento, afinal permitiu o desenvolvimento de uma civilização plural e com uma agenda cultural bastante avançada dentro dos padrões ocidentais.
 Abraços e até a próxima!

Profábio

A FUVEST E ANTONIL

A FUVEST E ANTONIL

O Brasil é o "inferno dos negros, o purgatório dos brancos e paraíso dos mulatos e das mulatas". Essas são as palavras do jesuíta italiano João Antônio, mais conhecido como André João Antonil, que esteve por aqui no século 17 e nos deixou um poderoso retrato do cotidiano da nossa sociedade açucareira. E pra gente entrar no clima do brasil colonial. Pois é, essa é uma das obras-primas do grande Vladimir Carvalho realizada em 1969 e que vai nos acompanhar em nosso passeio pela FUVEST de 2015.

ANGU, FEIJÃO E COUVE
Os escritos do jesuíta Antonil são frequentes nos manuais de vestibulares, afinal o seu livro “Cultura e populência do Brasil por suas drogas e minas”, publicado em 1711, é um excelente retrato do cotidiano de um brasil colonial que via as pedras preciosas das minas gerais assumirem o protagonismo econômico que um dia havia sido da produção açucareira nordestina.
Bem, eu tive a felicidade de estudar História na UFOP. Morei em Mariana, que foi fundada em 1969 e entrou para a história como sendo a primeira vila e a primeira cidade das Minas Gerais. Sim, claro: também frequentei Ouro Preto com ladeiras sem fim e suas ‘trocentas’ igrejas reluzentes. O Antonil também passou por lá nos idos de 1700 e achou bastante curioso o fato de as pessoas terem o hábito de comerem angu, feijão e couve. E passados 300 anos, esteja certo de que você ainda vai encontrar essas delícias por lá.
Outra expressão bastante frequente de Antonil nos manuais didáticos diz respeito à escravidão quando ele diz que os “escravos são as mãos e os pés dos senhores”. Então, que tal voltar ao filme para se ter uma ideia do aroma do engenho? 
Bem, o historiador Boris Fausto concordaria com ele ao demonstrar que, se em 1570, os africanos representavam cerca de 7% da mão de obra na zona açucareira, já em 1590, eles eram 37% da mão de obra. E se tornariam a totalidade da força de trabalho já na década de 1640.
Como você pode perceber, esse pupilo do padre Antônio Vieira também foi um historiador bastante atento às condições do seu tempo presente, de maneira que esse seu livro chegou a ser proibido de circular, já que a Coroa acreditava que ele poderia chamar a atenção de seus rivais colonizadores. Porém, mais uma vez, a literatura venceu a política, e eis o texto aqui na questão 06 da prova da FUVEST de 2015

Como você pode notar, o recorte do Antonil valoriza uma economia intermediária entre o açúcar e o ouro das Minas Gerais: o fumo.  Essa economia foi a segunda maior atividade destinada à exportação depois do açúcar e, em grande parte, esteve nas mãos de pequenos proprietários localizados no recôncavo baiano. E ali se produziu os mais diversos tipos de fumo, dos mais refinados para o mercado europeu aos mais grosseiros destinados ao comércio de cativos na África. Bem, dado esse cenário, vamos às alternativas:
ü  A LETRA A não seria adequada porque a economia do tabaco não configura um “ciclo” econômico; ela foi uma atividade periférica que abasteceu o mercado interno;
ü  A LETRA B também não é adequada pelo mesmo motivo: o importante aqui é reconhecer que a FUVEST exige do candidato a sensibilidade de perceber as dinâmicas econômicas internas da colônia, aquelas que escapavam do chamado “pacto colonial’;
ü  A LETRA C está fora de cogitação, afinal mesmo no auge da produção de ouro, estamos em 1760, a produção de açúcar atingia 50% do total das exportações.
ü  A LETRA D não atende às exigências do enunciado, primeiro porque o nosso foco é a economia do tabaco. E depois porque você sabe que é justamente nesse momento, por volta dos 1700, que estamos definitivamente rompendo as linhas do tratado de Tordesilhas junto com os bandeirantes;
ü  Assim, A LETRA E responde a questão porque demonstra a particularidade da economia do tabaco: ela foi importante não só porque foi exportada pelo mundo afora, mas também porque contribui para o desenvolvimento das atividades pecuárias e, assim, para a consolidação de um mercado interno;

CULTURA E OPULÊNCIA
Para encerrar, vale chamar a atenção para o fato de a FUVEST trabalhar com citações de clássicos, isto é, além de apresentar estudos de acadêmicos renomados, algumas vezes ela apresenta documentos históricos que permitem ao candidato o convívio direto com o que nós historiadores também chamamos de fontes primárias.
Nesse sentido, também vale a pena chamar a atenção para o fato da FUVEST fugir dos velhos esquemas “metrópole-colônia” e enfatizar a diversidade econômica do brasil colonial, ou seja, valorizar as dinâmicas econômicas internas e as riquezas da realidade histórica de nossa história colonial.
Abraços e até a próxima!

Profábio

A UNESP E O LIBERALISMO

A UNESP E O LIBERALISMO 

                Hoje vamos de tratar de liberalismo na prova da Unesp. E pra apresentar esse tema, eu gostaria de deixar vocês com uma senhora bem interessante, a Maria Pia, uma das várias personagens de Eduardo Coutinho em seu filme Edifício Master. Saca só: MARIA PIA. “Honra, vergonha, ignorância e pobreza de espírito”, eis uma série de valores em torno de uma atividade que eu e vocês chamamos de trabalho. Bem, você já deve ter notado que ela não está nessa vida a passeio, e por isso mesmo ela vai nos acompanhar em nosso raciocínio sobre o liberalismo.

LIBERALISMO
Antes de tratar da Declaração de Independência dos Estados Unidos, vale lembrar um pouquinho da história moderna das treze colônias antes de seguirmos com a questão.  Aqui você deve se lembrar que o vestibular vai exigir que você reconheça as diferenças entre a chamada colonização de exploração e a de povoamento.
A colonização de exploração diz como países de espírito católico, ou seja, os países ibéricos como Portugal e Espanha, mantiveram relações econômicas e políticas verticais com regiões de matriz tropicais. Isso significa que o propósito era manter uma relação burocrática centralizadora e práticas mercantilistas extrativistas, sejam agrícolas ou metalistas.
Por sua vez, a chamada colonização de povoamento trata das relações de países de espírito protestante com regiões coloniais que propiciavam um estilo de vida semelhante ao da metrópole. Nesse sentido, o estilo de vida e o ritmo de trabalho nas treze colônias inglesas foram forjados em torno da crença em valores como individualidade, trabalho e austeridade. Bem, o resto da história você já conhece: após uma forte crise econômica na Guerra dos Sete Anos, a coroa inglesa decide arrochar o fisco sobre as colônias.
Elas até estavam dispostas a negociar desde que obtivessem representação política no Parlamento Inglês, aquele consolidado na Revolução Gloriosa de 1688. Porém, sem negociação, puderam contar com o apoio militar da Espanha e França e com o apoio dos escritos de um importante teórico chamado John Locke para quebrar o monopólio inglês. E aí, ‘bora conferir o enunciado da questão 37 da Unesp de meio de ano de 2016

Como você pode notar, a Declaração norte-americana incorpora e dá publicidade aos valores iluministas ao defender que o contrato social envolve um consentimento entre indivíduos particulares em nome de valores como a liberdade, a felicidade e a segurança... Particulares. Nesse sentido, aqui você vai encarar a sociedade não como um coletivo, mas como um grupo de indivíduos livres e competidores que gostam de celebrar acordos baseados na lei da oferta e da procura, tal como a MARIA PIA
E aí, que tal essa convicção no liberalismo econômico no andar debaixo da sociedade? Bora pra alternativas:
ü  A LETRA A está equivocada porque o liberalismo compreende que as melhores soluções sociais estão no livre comércio e não na intervenção econômica do Estado;
ü  A LETRA B também está equivocada porque a independência dos EUA é, justamente, a crise do mercantilismo, cujas práticas econômicas estão baseadas no monopólio metropolitano;
ü  A LETRA C responde a questão porque ela traduz e sintetiza o enunciado ao te propor que o iluminismo é sinônimo de afirmação da ideia de cidadania;
ü  A LETRA D está errada porque o seu enunciado é político, e não religioso
ü  A LETRA E também está equivocada porque foi o espírito protestante que estimulou o liberalismo;

LIBERAL CONSERVATIVE
Talvez seja interessante atualizar esse ideário liberal para hoje em dia. Esse espírito político desenhado pelo enunciado é, geralmente, chamado de “liberal conservative”, isso significa dizer que se somos lockeanos, tendemos a encarar que quanto menor a interferência do governo nos assuntos econômicos, mais quente o mercado, melhor a concorrência e, portanto, mais estímulos e oportunidades para as pessoas trabalharem.
Sendo assim, aqui você percebe que a melhor solução para as questões sociais não é a política, mas sim a economia. Pois é, eu aposto que você já viu esse espírito lockeano num outdoor qualquer de sua cidade com os dizeres “não pense em crise, trabalhe”. Agora, veja: não há nada de errado nesta mensagem, desde que você saiba que, sim, ela é tão ideológica quanto qualquer outra afirmação política.
Abraços e até a próxima!

Profábio

A DITADURA NA UNESP

UNESP E DITADURA 

Como sabemos, o futebol é uma paixão nacional. O esporte bretão é uma das grandes marcas da sociedade brasileira, do seu espírito de consagração, do seu sentimento de unidade nacional. Bom, pelos menos até a Copa das Confederações em junho de 2013, quando, apesar da vitória da equipe canarinho, o saldo histórico foi bastante decisivo: uma série de manifestações sociais que questionaram a legitimidade de algumas instituições nacionais, a exemplo da PM e do Congresso. Dá uma olhada na propaganda da Anistia Internacional. Daí em diante, você já conhece a história: assim como o futebol, a política brasileira só toma de sete a um. Bom, o negócio então é voltar à conquista do tricampeonato na Copa de 1970 

UFANISMO É IDEOLOGIA
Nós já conversamos a respeito de ditadura militar na Unicamp. Como você sabe, a Unicamp te apresenta uma revisão historiográfica desse período ao deixar claro que a ditadura foi civil-militar, pois contou com o apoio de empresas e de setores civis na manutenção da repressão social.
Quanto à Unesp, ela nos traz uma questão com uma abordagem do imaginário social da ditadura ao apresentar dois cartazes que demonstram algumas propagandas políticas do período. Slogans como “Brasil, ame-o ou deixe-o” ou “Ninguém segura este país” eram recorrentes nos meios de comunicação a fim de estimular o sentimento de progresso, de avanço social e de prosperidade material ocasionado pelas medidas econômicas que marcaram o chamado “Milagre Brasileiro”.
Aqui um pouco de economia: como você deve se lembrar, o PAEG foi um plano heterodoxo, e isso significa dizer que, enquanto o Estado aumentou a sua capacidade de intervenção em setores energéticos e investiu pesado em infraestrutura ao mesmo tempo em que flexibilizou regras do mercado de trabalho e deu autonomia ao Banco Central.  O cabeça dessas medidas foi Antônio Delfim Neto, o mesmo cara que aconselhou boa parte do Governo Lula.
Bom, agora, por outro lado, é preciso reconhecer que essa fase de prosperidade econômica foi acompanhado não só do aumento das desigualdades sociais e econômicas como também foi simultânea ao auge da repressão social num momento conhecido como “Anos de Chumbo”. Você pode assistir ao “O ano em que...” para conferir uma abordagem sutil a respeito desse tema, confira: E aí, perceberam a sutileza do filme na abordagem da repressão social? 

Bem, podemos dizer que uma das formas da Ditadura encampar, camuflar realidades como essas era injetando ânimo e frenesi na sociedade a partir das conquistas esportivas. Vamos ao enunciado da questão 42 da Unesp de meio de ano-inverno de 2016
Como você pode notar, ambos cartazes envolvem cores nacionais e frases de ordem que inspiram progressismo, vigor e potencialidade histórica. Sendo assim, vamos às alternativas:
ü  A LETRA A está correta porque traduz corretamente a ideologia propagada pelos cartazes ao exigir do candidato, isto é, da população, a adesão ao espírito nacional;
ü  A LETRA B está completamente equivocada...
ü  A LETRA C está errada por uma razão muito simples e realista: sim, a ditadura contestava a oposição, mas através das armas...
ü  A LETRA D até pode te encantar, caso você esteja desavisado. Convenhamos, o esporte é o pano de fundo do contexto histórico e não está enunciado na questão;
ü  A LETRA E é um delírio, não?

POR QUE ME UFANO
O filme que indicamos, “O Ano em que...” aborda a ditadura a partir do ponto de vista de um garoto cujos pais estão envolvidos na luta armada e, portanto, acaba ficando com o vizinho do avô. Vale conferi-lo, afinal é cinema brasileiro de qualidade e tem uma sensibilidade poética para lidar com outras questões como as descobertas da infância e as heranças judaicas dos personagens.
Agora, se além disso, você topar uma leitura mais sofisticada sobre o tema, pesquise aqui no youtube um filme do Zizek chamado “Guia pervertido da ideologia” e procura saber sobre o funcionamento desse conceito tão controverso nos dias de hoje. E fiquem tranquilos porque, sim, ainda voltaremos ao Zizek na tentativa, repito, tentativa de conhece-lo melhor.
Abraços e até a próxima!

Profábio

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

EMPIRISMO na UNICAMP de 2015


Me diz uma coisa: vamos imaginar que você ganhou uma grana a mais de mesada e decide sair com seus amigos para celebrar a vitória no vestibular num rodízio de pizza. Você toparia se aventurar num novo lugar indicado pelas redes sociais ou você optaria por voltar aquele mesmo rodízio onde você sabe que a variedade é grande, a pizza farta e o atendimento é de primeira? Eu? Bem, quanto a mim, eu não pensaria duas vezes e deixaria o meu hábito falar mais alto: eu não trocaria a familiaridade com uma pizza por uma aventura qualquer. É que hoje ando meio lockeano. ‘Bora pra UNICAMP de 2015?

HÁBITO É UMA SEGUNDA PELE
Hoje vamos dar um pulo na UNICAMP para tratar de teoria do conhecimento. Como você sabe, nós já fizemos isso algumas vezes e alertamos vocês que “epistemologia” é um tema bastante comum nos vestibulares. Dito de outra forma, é como se existissem alguns grandes eixos temáticos como “teoria política”, “ética” e a “teoria do conhecimento”. E pra dialogar com o nosso tema de hoje, nós sugerimos o filme “O Enigma de Kaspar Hauser”, de 1974, uma obra-prima do alemão Werner Herzog inspirada em fatos.
O filme se passa no século 19 e vai te mostrar o caso real de um homem que passou toda a sua infância e juventude isolado do convívio social. Até que ele é deixado junto de um bilhete numa comunidade e, então, algumas pessoas o acolhem e tentam ajudá-lo a desenvolver linguagens e a se adaptar as convenções sociais. E aqui surgem as nossas questões, digamos, mais técnicas: de que forma eu e vocês produzimos conhecimentos? De que maneiras nós fabricamos uma visão de mundo, elaboramos conceitos e linguagens?
Digamos que questões como essas estavam em pauta ao longo da chamada Revolução Científica do século 17 quando duas escolas rivais trataram de encontrar argumentos lógicos para o funcionamento da consciência humana: o racionalismo francês cartesiano e o empirismo britânico de Locke e Hume.
Aqui você tem que se lembra que, naquele momento, a conquista da América já estava consolidada o suficiente para a inteligência europeia considerar que, supostamente, haveria uma distância entre um estado de natureza humana “selvagem e bárbaro” e uma condição social “culta e civilizada”. 

Essa distância entre uma suposta “natureza” e uma “cultura” você chamar de educação, tal como os iluministas fizeram. E esse será o tema da questão 50 da UNICAMP de 2015. ‘Bora ler o enunciado?
Você se lembra que “filosofia” é um tema bastante enxuto na UNICAMP e aqui ela vai direto ao ponto e te dá as melhores condições possíveis para você acertar na mosca: o recorte da citação lockeana é preciso e diz com todas palavras que a preocupação é sobre como produzimos conhecimento a partir das condições empíricas, isto é, concretas, materiais. Ou seja, ao contrário dos racionalistas cartesianos que valorizavam a cognição dedutiva a partir de uma distinção entre corpo e mente, os empiristas reconhecem que, sim, o corpo pensa: ele oferece sensações e impressões que serão selecionadas, organizadas e administradas pela razão para compor abstrações como conceitos, categorias e ideias. Vamos às alternativas que, convenhamos, não contém mistérios:
A LETRA A responde a questão porque se para os racionalistas neoplatônicos a virtudes/ ideias nos são inatas, para os empiristas neoaristotélicos é o potencial que nos é inato;
A LETRA B até que pode se sugerir ao erro, pois ao reconhecer que o empirismo é ceticismo ela acerta, afinal toda atitude científica é cética ao assumir uma postura de desconfiança diante da aparência do mundo. Mas a conclusão é errada, pois sim, é possível obter conhecimento, oras...
A LETRA C está fora de cogitação: lembre-se, de maneira bastante cruelmente resumida, você tem duas matrizes filosóficas desde a antiguidade: ou somos platônicos e valorizamos a primazia das ideias essenciais sobre a matéria ou somos aristotélicos e valorizamos a primazia da realidade empírica, material sobre o nosso potencial cognitivo e intelectual.
A LETRA D também está fora de cogitação, oras: uma coisa inata é uma coisa imanente, inerente, transcendental, metafísica e que está contida em nós desde o nascimento porque sempre esteve por aí tal como os números na natureza...

COSTUME É INTELIGÊNCIA
E se por acaso você ainda tem dúvidas em relação à força do empirismo, me responde a seguinte pergunta: você costuma se sentar no mesmo lugar em sua sala de aula? Claro que se é porque você tem mapa de sala, aí, meu velho, o medo da punição fala mais alto. Mas esse não for o seu caso e você realmente acreditar que você repete essa operação cotidiana “espontaneamente”, acho melhor você rever os seus conceitos.
Veja, é bem provável que se alguém se sentar em seu lugar, você vai ficar furioso, não é? É nesse momento que o seu conatus, a sua necessidade de adaptação, o seu instinto de preservação da espécie, fala mais alto que a sua razão: afinal, você não deixar que ninguém comprometa o seu trabalho, a sua dedicação e eficiência nos estudos, certo?
Abraços e até a próxima!

Profábio

NOVA ORDEM na UNICAMP de 2016


Se você é vestibulando, decerto que você sabe sobre o “11/09”, mas só de ouvir dizer... Se me permitem uma confissão, eu estava de passagem por Paraty enquanto a minha faculdade estava em greve, quando na manhã de 11/09/01, eu tomava um café na padaria e o famoso plantão de um noticiário dava a notícia extraordinária de que os EUA tinham sido atacados... Como nós sabemos, os ataques às Torre Gêmeas, que mataram mais de três mil civis norte-americanos, foram decisivos para a conformação da chamada Nova Ordem Mundial. Vejamos como isso se dá na UNICAMP.

TZVETAN TODOROV
A questão que vamos trabalhar traz a citação de um interessante teórico que vale a pena vocês conheceram desde já: Todorov. Nascido na Bulgária, ele viveu sua juventude sob o regime de ferro da União Soviética e, então, foi estudar linguística e literatura na francês com Roland Barthes. Ele se auto define como um historiador das ideias, e isso quer dizer que se você vai se aventurar no território das Humanidades, esteja certo de que, em algum momento você vai lê-lo. Dono de uma obra abrangente, ele te mostra como a política compromete as tendências literárias, como a literatura se relaciona com a história, e como é possível escrever uma história das ideias e representações.
Na obra em questão, “os inimigos íntimos da democracia”, Todorov parte de um olhar de quem viveu intensamente a transição entre a Guerra Fria e o avanço do neoliberalismo na chamada Nova Ordem Mundial. E disso resulta um olhar interessante de quem consegue perceber como os excessos da democracia hoje em dia guarda algumas semelhanças com velhas práticas autoritárias.
Pois é, Todorov, por exemplo, analisa como o avanço do neoliberalismo destruiu as velhas definições dos Estados nacionais e possibilitou a emergência de discursos messiânicos que investem a defesa da democracia como um valor absoluto, universal. Isto é, como se o combo “liberdade-fraternidade-propriedade privada” pudessem ser exportados e, às vezes, impostos pelo uso da força. Um exemplo seria a diplomacia da doutrina Bush, que tinha como princípio a chamada “guerra contra o eixo do mal” e cujos resultados conhecemos bem...

Como sabemos, a invasão do Iraque a partir de 2003 pode ser vista como um lance de um xadrez diplomático mais complexo levado a cabo, particularmente pelos EUA, mas não só por ele, desde os anos 90. E é este raciocínio que encontramos na questão 64 da prova da UNICAMP de 2016. 

Como você nota, a UNICAMP provoca o seu repertório de atualidades com uma breve citação de Todorov aparentemente simples, mas que condensa conceitos decisivos, a exemplo de “messianismo”, “democracia” e “direitos humanos”.
Sendo assim, o melhor que fazemos é analisar detalhadamente as alternativas, vejamos:
A LETRA A está equivocada porque foge do recorte histórico do enunciado. Em primeiro lugar, em termos de vestibular, as “lutas anticoloniais” se inserem dentro da lógica da Guerra Fria. Em segundo lugar, essas lutas no continente africano envolveram, principalmente, Angola, Moçambique e Argélia – e não a África do Sul;
A LETRA B responde a questão porque leva em consideração como a diplomacia estadunidense se apoiou na suposta defesa da democracia como um bem universal para legitimar ações militares sobre o Afeganistão e Síria a fim de defender outros interesses. Assim, o tal ‘messianismo’ de que fala o enunciado exige de você uma boa preparação em atualidades, pois este conceito diz sobre como a ideia de democracia foi investida de uma religiosidade, isto é, como ela foi usada como um valor absoluto que poderia ser defendido, exportado e imposto inclusive pela força das armas numa escala global;
A LETRA C está completamente equivocada. Veja, aqui você deve se lembrar que a Iugoslávia é desmembrada porque a OTAN, um órgão militar ocidental, declarou guerra contra ela, um país soberano. O resultado, como você sabe, foi uma carnificina que durou cerca de três anos, com mais de 200 mil mortos e o deslocamento de mais de 2 milhões de pessoas;
A LETRA D, enfim, está equivocada primeiro porque o enunciado enfatiza as rupturas da chamada Nova Ordem com a Guerra Fria. E depois porque a Ucrânia viveu muito bem uma democracia até sofrer retaliações russas a partir de 2014 devido às possibilidades de ingresso na UE;

NOVA DESORDEM MUNDIAL
Para encerrarmos, vale chamar a atenção para o discurso de Obama em Oslo, quando foi receber o Nobel da Paz em dezembro de 2009. Naquela ocasião, ele declarou que os EUA travavam no Afeganistão uma “guerra justa” e enumerou três condições, todas necessárias, para que uma guerra possa ser declarada como tal: “em caso de legítima defesa; se a força empregada for proporcional; se as populações civis forem poupadas”. De acordo com Todorov, o fato de que nenhuma das três foi cumprida, permite dizer que, na verdade, o contemporâneo pode ser chamado de uma nova desordem mundial.
Afinal, a crença de que a democracia e o livre comércio são o último fim da vida humana faz com que os países centrais camuflem seus reais interesses e decidam que vidas valem a pena serem vividas.

Abraços fortes, e até.

DITADURA na UNICAMP de 2015


Hoje vamos tratar de um tema que assumiu grande relevo nos últimos anos, a ditadura militar brasileira. Esse ainda é um tema quente na sociedade brasileira e suscita algumas polêmicas que, convenhamos, já deveriam ter sido superadas pela chamada “consolidação da democracia com a Nova República Brasileira”... Melhor deixado isso de lado, certo? Bom, se preparem porque tentaremos dar algumas pistas de como esse tema é abordado nos vestibulares seguindo o filme Cidadão Boilesen.

A CNV E UMA REVISÃO HISTÓRICA
Em 2010, pouco antes de deixar o governo, o presidente Lula assinou um decreto que criava a Comissão Nacional da Verdade. Naquele momento, a Comissão já era uma demanda histórica de setores da sociedade brasileira que exigiam a abertura de determinados arquivos históricos e investigações sobre como o exercício da violência foi institucionalizado e legalizado durante a ditadura.
Além disso, o debate sobre a criação da CNV também colocava em pauta a investigação sobre os mortos e os desaparecidos nos 21 anos da ditadura e as possíveis participações de setores civis no funcionamento dessa máquina repressiva. Como nós sabemos, coube ao governo de Dilma seguir adiante com a formação da CNV e arcar com a responsabilidade de montar, dar suporte e concluir os trabalhos da CNV.
Em resumo, foram dois anos de trabalho, cerca de 600 pessoas entrevistadas e o reconhecimento da institucionalização de técnicas, por exemplo, da tortura física e psicológica, isto é, a violação dos direitos humanos era uma prática que fundamentava o chamado Estado de Direito. 
Ainda haveria muito a ser dito sobre a CNV, mas como todo exercício histórico envolve um recorte de tema, tempo e espaço, hoje nós vamos acompanhar o raciocínio proposto pela questão 57 da UNICAMP em 2015, vamos ao enunciado:
Como se lê, a UNICAMP vai direto ao assunto e propõe, de maneira simples, um debate historiográfico que suscita grandes paixões dentro da academia: a ditadura foi mesmo somente militar? Quer dizer, foram somente os militares que governaram? Houve apoio de setores civis? Se sim, de que modo isso ocorreu?
Perceba, essa pode parecer uma questão simples, mas, no fundo, diz muito sobre a nossa sociedade brasileira. Afinal, se o regime é ditatorial e a repressão, censura e a recorrência à violência contaram com o apoio de setores civis, isso quer dizer que o autoritarismo não é um monstro opressivo, um grande Leviatã, como diria Hobbes. Ao contrário, ele está entre nós. Bem, vamos às alternativas. 
A LETRA A te propõe uma grande confusão. Veja, a Passeata dos 100 mil é uma iniciativa civil sim, mas contra a gradativa repressão que ocorria devido aos AI’s... E a campanha da Anistia também é civil e chega contar com apoio da ABI, OAB e CNBB, mas em nome da transição para a democracia;
A LETRA B até pode te levar ao erro, caso você não saiba que o tal “clero brasileiro” se refere, principalmente à Igreja Católica. Que de homogênea não tinha nada, procure mais sobre Frei Betto, Leonardo Boff e a Teologia da Libertação;
A LETRA C é outra que faz uma confusão... Veja, no contexto latino-americano, o Brasil foi o único país cuja ditadura contou com cinco presidentes e mecanismos de representação política como as eleições indiretas e o bipartidarismo. Agora, vale dizer: parcial representação política.
A LETRA D é adequada porque dialoga com a atualidade das investigações da CNV: aqui bastava você assistir, no mínimo, um Jornal Nacional pra estar antenado com as atualidades e saber de notícias como essa... Isto é, o exercício de “mea culpa” da corporação faz questão de enfatizar que ela expressava um anseio social que não era somente uma questão de classe, mas um anseio popular;

O PASSADO É PRESENTE
Bom, talvez seja interessante reafirmar que optamos por fazer uma introdução a respeito do tema. Seria interessante chamar a sua atenção para a atuação pública do professor da UFF Daniel Araão Reis. Deixamos aqui na descrição uma sugestão de entrevista para você conhecê-lo. Além disso, existe uma vasta produção fílmica a respeito dos temas ligados à ditadura. Optamos pela Boilesen porque ele justamente o mesmo argumento que a questão da UNICAMP.
E sim, pretendemos voltar aos temas ligados à ditadura, afinal ainda existem entre nós muitos órfãos de ditadores que clamam pela volta da ditadura... Duro, não? Bem, pra esses, a melhor vacina se chama História.
Abraços e até a próxima!

Profábio